Representatividade feminina na política

A baixa representatividade feminina na política brasileira tem sido observada nas diversas esferas de poder. Atualmente, o país ocupa apenas a 121ª posição em termos de participação feminina na política. Na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, há 35 parlamentares, dos quais apenas quatro são mulheres.

Em entrevista, a candidata à Prefeitura de Porto Alegre em 2016, Luciana Genro, relata que ser mulher na política é um desafio permanente em busca de espaços e afirmação, “ainda mais quando se é mulher e filha de um político já reconhecido”, afirmou a filha do ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro.

Luciana Genro com a bandeira do partido que representa. Foto: Fábio Pozzebom — Agência Brasil
Luciana Genro com a bandeira do partido que representa. Foto: Fábio Pozzebom — Agência Brasil

Advogada e fundadora do PSOL, Luciana Genro afirma que teve que lutar ao longo de sua trajetória na política, especialmente no início, durante o primeiro mandato como deputada estadual. Naquele momento, Luciana era a mais jovem da Assembleia Legislativa e teve que demonstrar que não era apenas filha de um político conhecido, mas que tinha pensamento próprio e projetos para apresentar. “Ainda hoje há pessoas que têm dificuldade de entender que uma mulher na política, filha de um político, pode seguir um caminho diferente daquele trilhado pelo pai. Essa é uma forma de preconceito bastante presente, embora muitas vezes seja sutil. Tenho uma relação de carinho e amor muito grande com o meu pai, mas na política seguimos caminhos distintos. E a dificuldade de entender e respeitar isso também é fruto do machismo”, conta a candidata.

Durante a campanha de 2016, Luciana recebeu apoio de pessoas de todas as faixas etárias. “Pessoas de todas as idades me paravam na rua para cumprimentar e manifestar apoio”, relatou Luciana, que também recebeu incentivo das mulheres, da juventude e da população LGBT.

Travestis e transexuais lutam por espaço na política brasileira

Luiza Eduarda dos Santos, 40 anos, jornalista e ativista do movimento LGBTs no Rio Grande do Sul, contou sobre a sua luta como mulher transexual no universo político. Apesar de se sentir extremamente respeitada e de ter espaço no partido que escolheu representar, o PSOL, ela conta que ainda sofre com os preconceitos por ser mulher e, ainda mais, por ser transexual.

“A política brasileira é muito injusta em questão de gêneros”, critica Luiza. O Brasil tem cerca de duzentos milhões de pessoas, sendo 51,3% de mulheres, o que representa mais da metade da população. Porém, em contraponto, na Câmara de Deputados, apenas 9% são mulheres, números que não condizem com o percentual feminino do país.

Neste ano, 84 mulheres transexuais se candidataram aos cargos de vereadora e prefeita. Somente quatro delas foram eleitas como vereadoras nas cidades em que concorreram, porém, apesar de baixo, este é um número significativo para a visibilidade do movimento LGBTs, onde em 2012, nas eleições anteriores, foram registradas somente 31 candidaturas. “As pessoas estão começando a discutir cada vez mais sobre quem são os travestis e transexuais e onde eles estão”, refletiu Luiza ao falar sobre a quantidade de mulheres que nos representam na política.

Em entrevista para o site Jornalistas Livres, o ator e empresário Thammy Miranda disse que a luta da população LGBTs precisa ser cada vez mais empoderada e percebida, principalmente pela utilização do nome social dentro e fora da política. Foi o caso de Luiza Eduarda, que teve todo apoio do partido para utilizar o seu nome social na campanha, que foi devidamente aceito pelo TRE no processo de candidatura. Além disso, a luta dos transexuais e travestis não para por aí: a transfobia é o foco, onde buscam o reconhecimento do ato como crime perante a sociedade.

Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, com origem nas manifestações das mulheres por melhores condições de vida e trabalho.
Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, com origem nas manifestações das mulheres por melhores condições de vida e trabalho.

Em entrevista, a candidata Alessandra Pinho, representante do PT em Gramado, cidade da serra gaúcha, contou sobre a realidade vivida na política municipal e os desafios a serem enfrentados.

Quais as dificuldades envolvidas na esfera política como formas de preconceito e críticas recebidas por ser mulher?

Alessandra: Acredito que a maior dificuldade está no comportamento e na formação dos indivíduos que compõe esse grupo. O ego, a insegurança, o preconceito e todos os tipo de comportamento ou pensamento que sejam distantes de um alvo comum, acabam criando uma barreira muito grande para a evolução da sociedade. Não recebi críticas, tampouco apoio dentro do partido como eu gostaria, no sentido de planejamento ou mobilidade para fazer visitas

E por que entrou na política?

Alessandra: Vir de família pobre e não ter recursos para investir numa carreira porque precisava trabalhar; me incomodar profundamente com injustiças de qualquer tipo e descobrir, através da internet, a possibilidade de conhecer novas visões e de ter acesso a informações diferentes das que as mídias convencionais ofereciam.

Como surgiu o convite para a chapa petista?

Alessandra: Minha candidatura surgiu à convite do partido (PT), mas para compor a quantidade necessária de mulheres que possibilitariam os candidatos homens completarem a chapa.

De quem surge o apoio recebido durante a campanha?

Alessandra: De mim mesma, de um dos filiados do partido por sua própria conta, até um certo momento e com muitas limitações na disponibilidade de seu tempo. Nas duas últimas semanas recebi o reforço do meu marido, Alexandre Guaranys, que chegou de viagem do Rio de Janeiro para me auxiliar até o final da campanha.

O machismo presente na política

Da direita para a esquerda: pesquisa feita com eleitores e pesquisa feita com eleitoras — ambos do município de Sapucaia do Sul, Rio Grande do Sul.
Da direita para a esquerda: pesquisa feita com eleitores e pesquisa feita com eleitoras — ambos do município de Sapucaia do Sul, Rio Grande do Sul.

Para quem acha que a desigualdade na política não é evidente, a pesquisa feita no município de Sapucaia do Sul, no dia 2 de outubro, comprovou que a confiança dada às mulheres é sempre menor que a dada aos homens. Foram 24 entrevistados, sendo 10 deles homens e outras 14 mulheres. Apesar de terem sido registradas 54 candidaturas de mulheres dentre os 180 candidatos de ambos os sexos, fica evidente o quão mais difícil é ser votada sendo mulher, onde muitas vezes é preferível votar nulo do que dar o voto de confiança a alguém do sexo feminino. A pesquisa deixa evidente o machismo que as mulheres envolvidas na política precisam conviver, em especial em municípios pequenos e com grande desigualdade na área da educação, onde a maior parcela dos naturais não chegam nem a concluir o Ensino Médio.

*Matéria produzida para a cadeira de Jornalismo Digital da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, ministrada pelo professor Micael Behs, pelas alunas Júlia Maciel, Laura Nienow, Martina Belotto, Luana Tavares e Andressa Brunner Michels.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *